Ciência, luz, religiões e verdades

Eu tentei encontrar uma luz que me ajudasse a pensar em algo interessante sobre Física para postar aqui no blog, após um longo tempo ausente, devido à correria no meu novo emprego, e no final das contas acabei optando por falar um pouco sobre religião, este assunto que muitos consideram indiscutível, mas que na prática tem sido o causador de intermináveis debates, revelando grandes divergências de pensamentos devido às várias maneiras com que cada um interpreta e adota ao seu modo diferentes filosofias de vida.
O problema é que não consigo ficar quieto quando vejo que algumas destas doutrinas se metem em áreas que a Ciência já demonstrou ter muito maior domínio de causa.

É certo que os pilares básicos da Ciência que a humanidade levou tanto tempo para edificar, através de observações críticas e contínuas, das anotações dos erros e acertos, das tentativas e experiências bem ou mal sucedidas, já deram provas suficientes de que são muito consistentes. Como não concordar, por exemplo, que as contribuições da Ciência foram de grande valia para ampliarmos a nossa qualidade e expectativa de vida?
Sendo assim, não consigo entender como é que alguém que tenha tido a oportunidade de estudar e aproveitar pelo menos um pouco das coisas positivas passadas pela escola que frequentou, possa seguir e praticar rituais de uma determinada religião que advoga explicações tão ingênuas e simplistas para questões que há muito tempo angustiam a humanidade, tais como a origem das espécies ou o surgimento do Universo.
Usando na maioria das vezes argumentos baseados apenas no que está escrito em um ou outro livro qualquer, que consideram sagrados, e cujas colocações e inserções são tidas como dogmas inquestionáveis, cada uma dessas religiões têm as suas explicações para estas questões.
Para que entendam melhor por que eu acho que as pessoas poderiam evitar ficar ao longo de suas vidas, moldando seus pensamentos somente de acordo com o que propõem estes livros, vou usar ideias de um antigo pensador árabe, citado no 5º episódio da nova série Cosmos.

Cosmos - Escondido na Luz
Neste episódio, o astrofísico Neil deGrasse Tyson fala sobre os estudos de Newton, Herschel, e outros cientistas, com relação às propriedades da luz. Cita o exemplo da Câmara Escura, assunto muito interessante sobre o qual já escrevi aqui, e o infravermelho, que eu escolhi não por acaso para dar título a este meu blog. Ele explica de que maneira as investigações e descobertas dos fenômenos luminosos abriram novos horizontes, possibilitando um melhor entendimento sobre as composições das estrelas e galáxias distantes, permitindo que determinássemos até mesmo a própria consistência de todo o Cosmo.
Há um trecho narrado neste episódio, que eu gostei tanto que até fiz questão de transcrever aqui. As palavras são atribuídas a um árabe chamado Alhazen (imagem), que viveu de 965 a 1040 d.C., e que foi um dos primeiros a adotar uma postura crítica de raciocínio que se aproximava muito da usada no que conhecemos atualmente como o Método Científico. Leiam:


"Encontrar a verdade é difícil, e o caminho é acidentado. Como buscadores da verdade, o melhor é não julgar e não confiar cegamente nos escritos dos antigos. É preciso questionar e examinar criticamente o que foi escrito, por todos os lados. É preciso aceitar apenas o argumento e a experiência, em vez do que qualquer pessoa diz, pois todo ser humano é vulnerável a todos os tipos de imperfeição. Como buscadores da verdade, devemos suspeitar e questionar nossas próprias ideias ao investigarmos fatos, para evitar preconceitos ou pensamentos descuidados. Sigam este caminho e a verdade vos será revelada."

Bacana, não acham? Este é um modo de pensar sobre todas as coisas, que a mim aparenta ser um dos mais compensadores de serem praticados. Essas palavras de Alhazen, mesmo que as vezes soem até meio proféticas, ou que pareçam ter sido redigidas por um apóstolo, é o tipo de filosofia que não encontra um paralelo naqueles livros considerados doutrinadores, nos quais não deve haver espaço para propaganda a favor do livre pensamento. Neles, os benefícios aos fiéis seguidores são fáceis de serem identificados, e os deveres, datas, e frequência aos rituais não devem ser questionados, mas sim pontualmente seguidos. Além do mais, sugere-se neles que não se pode contrariar as tradições religiosas seculares, pois sendo elas já tão duradouras, não poderiam estar equivocadas, não é verdade?


Tempo, costumes e tradições eternizando a "verdade"
Este é o problema. Cada vez mais a Ciência, pelo fato de defender ideias tão diferentes das que professam estes intocáveis "sagrados" escritos, inevitavelmente acaba entrando em rota de colisão com as religiões mais difundidas no mundo. Porém, o que me deixou mais transtornado foi ver que na estréia do novo seriado Cosmos, que na minha opinião foi um dos melhores presentes que recebemos neste ano de 2014, adeptos de religiões fundamentalistas dos EUA criticaram e tentaram censurar trechos. Um absurdo sem tamanho.
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6 comentários:

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    1. Obrigado, Roca, Além da série Cosmos, o outro presente para os amantes da astronomia foi constatar que no seu belíssimo site
      http://eternosaprendizes.com/
      você voltou a postar regularmente, nos informando sobre as novidades e descobertas astronômicas recentes. Estou sempre de olho, acompanhando as notícias que aparecem por lá.
      Parabéns, Fiquei contente que você tenha gostado deste post.Fico honrado com visitas de pessoas que eu admiro tanto pelo belo trabalho de divulgação científica que fazem.
      Abraço.

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  2. É isso Jairo, a religião se anuncia como algo à parte da ciência, mas adora usar o que lhe convém da ciência e meter o bedelho em assunto que não é da sua alçada, principalmente as religiões ditas recentes como o espiritismo e outras. Eu estou vendo o Cosmos novo, mas apesar de estar gostando, ainda prefiro o original menos cheio de efeito especiais e com mais dramatização de fatos históricos e com um viés menos eco-chato, sem contar na presença fantástica de Sagan. Há uns anos eu comprei a edição de aniversário revisada pelo Sagan. Abs!

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    1. Eu tenho muitos amigos religiosos, mas quando estamos juntos, raramente surgem conversas sobre religião. Cada um respeita a do outro e é perfeitamente possível a convivência entre elas. O problema é quando eu vejo pessoas fanáticas de algumas religiões se metendo a criticar e às vezes atacar conceitos da ciência ou programas que tratam de ciências, evolução das espécies, Teoria do Big Bang, e assim por diante. Aí não dá pra não ficar aborrecido.
      Sobre o Cosmos novo, eu sou fã da versão original. Também acho que na antiga, têm umas dramatizações com atores e figurinos que senti falta na nova versão. Por exemplo, o figurino de época e o ator que representa Kepler, no episódio "A Harmonia dos Mundos". dão uma dramaticidade às histórias, bem melhor do que os desenhos animados. Apesar disso, estou achando muito bom. Estou lecionando uma matéria eletiva na minha escola, com 30 alunos que a frequentam porque optaram: Astronomia. Passei para eles no telão, os 4 primeiros episódios da nova série, e eles gostaram.
      Abraço, e obrigado pelo comentário.

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  3. Ah Religião e Ciência... nada a ver!!!

    Quanto a séries Cosmos,também tenho um carinho especial pela primeira versão. Mas a nova é viciante, possui atualização das teorias e Neil DeGrasse é sensacional. E curto muito as animações.

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    1. É isso aí, Cidão. Eu estou gostando da nova série Cosmos. Bom....a versão antiga não tem igual, principalmente por causa da presença do grande Sagan, mas o seu discípulo Tyson foi super bem escolhido para narrar esta nova. Além do mais, Ann Druyan é uma figura que fica por trás da cena, mas que escreve e produz brilhantemente.
      http://universoracionalista.org/conheca-a-mulher-por-tras-da-serie-cosmos/

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