O câncer associado ao uso de celulares

Há alguns meses, uma colega professora de Biologia da mesma escola em que dou aulas, alertou-me para que eu não transportasse o celular no bolso da frente da calça como costumo fazer sempre, pois segundo ela, haveria comprovações de que este hábito poderia causar câncer, devido às radiações emitidas pelo aparelho. Disse então a ela na época que ainda não tinha conhecimento de nenhuma pesquisa conclusiva a respeito, mas iria procurar me informar melhor.

A reportagem da Folha
Em outro dia, quase no final do ano letivo, a mesma professora gentilmente me entregou a matéria do jornal Folha de São Paulo (clique aqui para ver a versão eletrônica), em que a epidemiologista Devra Davis alertava para que nos precavêssemos a respeito dos telefones móveis, pois poderíamos estar de fato correndo risco de uma exposição às radiações ao aproximá-los do ouvido durante as ligações, aumentando com isto as chances de adquirirmos um tumor cerebral. Fiquei preocupado.
Devra comparava na reportagem o atual desconhecimento destes problemas que podem ser causados durante longas exposições à semelhante ignorância que se tinha antigamente com relação aos danos provocados pelo hábito de fumar, e também aos problemas causados pelo amianto, descobertos só depois que apareceram as primeiras vítimas do uso indevido deste produto, que por sinal, ainda hoje é usado em alguns lugares do Brasil.

A Polêmica
A princípio, na época em que li a reportagem, pareceram-me coerentes os argumentos da Dra. Devra em defesa desta precaução, mas este post do blog Cultura Científica, escrito por Leandro Tessler, mestre em Física pela UNICAMP, e Ph. D. pela Tel Aviv University, me fez pensar melhor a respeito do caráter exageradamente alarmista de algumas destas reportagens de jornais.
Tessler rebate os argumentos da Dra. Devra, e de outros métodos usados em algumas pesquisas que concluem sobre as causas do aumento da incidência de tumores cerebrais nas pessoas, relacionando-as ao crescimento do número de celulares no mundo, estimado atualmente em aproximadamente 4 bilhões de aparelhos.

Dúvidas
Para não ficar apenas com estas opiniões, ainda por cima discordantes, resolvi pesquisar exaustivamente o assunto aqui na internet, e confesso que a cada artigo ou reportagem que ia lendo ficava com mais dúvidas ainda, pois a quantidade de pessoas que concluiam pela defesa de um alerta a respeito do problema era proporcional à quantidade daquelas que achavam que não haveria motivo algum para alarmes. De link em link, cheguei a esta transcrição (em inglês) de um interessante debate realizado no programa Larry King Live, da CNN, em 2008, com a presença de neurocirurgiões e da esposa de um advogado americano famoso que usava o celular durante várias horas do dia, e que havia falecido em decorrência de um tumor cerebral. No entanto, apesar de todo meu esforço por um veredicto definitivo sobre a questão, minha dúvida permanecia. Continuei lendo e comparando, e conclui que uma boa pista seria dada mesmo pela boa e velha Física, a respeito do tipo de radiação emitida pelos celulares.

Radiação ionizante e Radiação não ionizante
Os raios infravermelhos, ultravioletas e a luz emitida pelo sol são exemplos de ondas eletromagnéticas. Quando a frequência das ondas é muito alta, as radiações são chamadas ionizantes, como é o caso dos raios X, ou raios gama, e seus efeitos adversos já são bem conhecidos. Acontece que as radiações dos celulares possuem frequências bem menores, mais próximas das microondas, e são classificadas como não ionizantes. Veja na figura, o espectro eletromagnético mostrando alguns tipos de ondas e suas frequências.
A frequência dos celulares no espectro eletromagnético
Um efeito possível da radiação não ionizante é o aquecimento, como fazem as microondas e algumas faixas de freqüências do infravermelho, mas o que se sabe é que as microondas usadas nos celulares são de baixíssima potência, e na verdade só podem provocar aumento de temperatura nas células do nosso corpo, em apenas alguns décimos de graus Celcius. Assim, poderíamos concluir que dificilmente estas ondas seriam prejudiciais, desde que a exposição a elas não fosse muito prolongada. Além disso, outro fator que diferencia as microondas dos celulares daquelas usadas nos fornos de nossas casas é a potência, medida em Watts (W).

Níveis de radiação
A Anatel estabelece uma Taxa de Absorção Específica, ou Specific Absorption Rate (SAR), que indica o nível máximo permitido de radiação dos celulares. Ela é fixada a partir do que é considerado como limite seguro para o aquecimento que as células do corpo suportam, ao entrar em contato com a radiação emitida pelos aparelhos. No Brasil, a taxa máxima permitida é de 2 W/kg. A tabela abaixo, obtida neste site, mostra os índices SAR emitidos por alguns aparelhos vendidos no Brasil.
O índice SAR de seu aparelho pode ser obtido no manual(ou site) do fabricante.
A Mais Completa Pesquisa
A pesquisa considerada mais completa feita até hoje foi um trabalho da OMS (Organização Mundial da Saúde), intitulado Interphone, publicada este ano, e cujo resumo pode ser lido aqui (em inglês). O estudo reforça a opinião de que não há risco de aumento na incidência de tumores cerebrais em pessoas que usaram celulares por até 10 anos seguidos, mas reconhece que são necessárias pesquisas ainda mais completas. Mais uma vez, alguns cientistas contestaram os resultados. Veja aqui.
De fato, temos que reconhecer que a pesquisa perde um pouco da credibilidade a partir do momento em que parte dela teria sido financiada justamente por empresas de telefonia móvel, obviamente nada interessadas em um parecer desfavorável a elas. Outra falha apontada na pesquisa é que ela não considerou o efeito em crianças e adolescentes, que seria bem maior do que nos adultos, pelo motivo de que principalmente nestas faixas de idade ainda é alta a taxa de crescimento das células que formam os tecidos cerebrais, e este fato é reconhecidamente associado a uma maior vulnerabilidade destas células, notadamente no que diz respeito às radiações.
Notei então que haveria mesmo a necessidade de melhores estudos dos possíveis efeitos em crianças e adolescentes, que hoje em dia representam uma grande porcentagem do número de pessoas que se utilizam dos telefones móveis. Estão previstas outras pesquisas neste sentido.

Minhas conclusões
Depois de ler atentamente muitas opiniões e interpretações de vários especialistas, e outros nem tanto, cheguei à conclusão de que realmente não podemos, por enquanto, falar em certezas. Se mesmo os melhores pesquisadores ainda não chegaram a um consenso, e pelo que vi, ainda estão longe disto, seria aconselhável considerarmos que o uso abusivo destes aparelhos, principalmente por crianças, deveria ser evitado. Já alertei minha filha de 10 anos sobre isto, pois acho que um pouco de prudência neste caso não faria mal a ninguém.
Não acho, apesar disto, que há razões suficientes para recomendações alarmantes, que para mim só tem como objetivo chamar a atenção, no caso dos jornais, com uso de sensacionalismos, que prestam um desserviço à compreensão por parte dos leitores, sobre a necessidade da adoção de cautelosas interpretações dos resultados de uma pesquisa científica séria.

Fontes:
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