Os brasileiros que ajudaram Einstein

O eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, e observado no céu da cidade de Sobral, no estado de Ceará, foi usado para confirmar, com a ajuda de dois astrônomos ingleses, Andrew Crommelin Charles Davidson, juntamente com  uma equipe de colaboradores brasileiros, um fenômeno previsto na teoria proposta em 1915 por Einstein.
Os colaboradores brasileiros com os ingleses, Crommelin ( círculo vermelho)  e  Davidson (círculo azul).


A Teoria da Relatividade Geral previa que a luz, ao passar nas proximidades de um intenso campo gravitacional de um corpo massivo, sofreria um desvio em sua trajetória.
Através das fotos do eclipse daquele dia e após análises posteriores feitas por um conceituado grupo de cientistas, houve a comprovação do efeito previsto, e a partir daí, Einstein passou a desfrutar de maior credibilidade na comunidade científica, tornando-se cada vez mais reconhecido e famoso.

Problema: Como medir o desvio?
Devido às grandes dimensões exigidas para a verificação prática do desvio da trajetória da luz, Einstein imaginou que para uma comprovação experimental seria preciso obter duas fotografias, uma de um campo de estrelas atrás do corpo massivo, e outra do mesmo campo de estrelas sem a presença do corpo massivo. Comparando as duas fotografias, as estrelas vistas mais próximas da borda desse corpo deveriam apresentar uma pequena diferença de posição.
No entanto, caso o Sol fosse usado como corpo massivo, haveria uma outra dificuldade causada pela sua luminosidade, o que ofuscaria a luz das estrelas vistas próximas de sua borda, impedindo assim que elas fossem fotografadas. Diante disso, obter tais fotografias com o Sol entre as estrelas, mas sem a sua luz ofuscando-as seria possível em apenas uma única circunstância: durante um eclipse total.
Veja a figura abaixo que eu montei. A luz de uma estrela desvia-se, fazendo com que sua posição aparente, vista da Terra, seja alterada em relação à sua posição real. A Lua está posicionada exatamente na linha formada entre o Sol e o nosso planeta, definindo uma estreita região de sombra na Terra onde é possível verificar o eclipse total. No eclipse de 1919, em determinado instante do dia 29 de maio, o ponto correspondente à cidade de Sobral estaria exatamente dentro desta região.
 Desvio de um raio de luz proveniente de uma estrela, ao passar próximo ao Sol.  (Distâncias e tamanhos fora de escala) 
A comprovação
Em Julho de 1919, dois meses após o eclipse, os dois astrônomos ingleses retornaram à Sobral para fotografar o mesmo campo de estrelas, desta vez sem a presença do Sol.
O cálculo do desvio previsto por Einstein não foi um processo simples. Em todas as placas fotográficas reveladas, as estrelas não estavam suficientemente próximas do Sol. (Veja ao lado uma das imagens obtidas no Brasil). Além disso, as placas de Sobral revelaram um desvio médio de apenas 0,97 segundos de arco, o que, levando em consideração os erros de medida devido à baixa qualidade das imagens e aos efeitos de refração da atmosfera, correspondia aos valores calculados pela teoria gravitacional de Newton, e não à teoria de Einstein.

O chefe das missões que patrocinou a vinda dos astrônomos ingleses ao Brasil, e que fez parte de outra missão de observação em um outro local da Terra onde também ocorreria o eclipse total, na Ilha de Príncipe, na costa ocidental da África, era um cientista inglês que defendia entusiasticamente a Teoria da Relatividade Geral: Arthur Stanley Eddington.  
Eddington teria então privilegiado as medidas dos desvios que favoreciam a Teoria de Einstein, afirmando que todas as medidas obtidas acima do valor "newtoniano", que correspondia a 0,87 segundos de arco, somente poderiam ser explicadas pela teoria de Einstein.

No dia 6 de Novembro de 1919, Eddington divulgou os resultados, concluindo que as observações comprovavam as previsões de Einstein. A partir deste instante, a Teoria da Relatividade Geral passou a ser mais aceita, e popularizou cada vez mais a figura do seu gênio criador. Pode-se dizer que isto se deveu em parte à dedicada colaboração de alguns cientistas e astrônomos brasileiros, bem como dos anfitriões habitantes da cidade de Sobral, que muito bem acolheram e ajudaram os astrônomos ingleses na obtenção das fotos do eclipse.

Fontes:
http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol6/Num1/eclipse.pdf
http://www.observatorio.ufmg.br/pas16.htm
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