Hidroelétrica de Belo Monte: um mal necessário?

No dia 26 de Janeiro de 2011, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), concedeu autorização para que o consórcio Norte Energia S.A. instale o canteiro prévio para as obras da construção da usina Belo Monte, no rio Xingu, no estado do Pará.
A histórica polêmica sobre esta hidroelétrica, que já dura duas décadas, tem colocado o governo brasileiro e os ambientalistas em constantes embates, algumas vezes exacerbados. A foto, de 1989, mostra a índia Tuíra, colocando o facão no rosto de Muniz Lopes, na época, diretor da estatal Eletronorte, num gesto de advertência, durante o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu. 


A posição do atual Governo
Quando era ministra das Minas e Energia do governo Lula, em 2002, a presidente Dilma Rousseff já defendia a construção de Belo Monte, alegando que o motivo principal seria suprir a demanda de energia elétrica, possibilitando o crescimento do país. Esta posição significa que ela deverá continuar enfrentando muitos protestos dos ecologistas. O questionamento que eles fazem é se este seria realmente o motivo principal da construção da usina, e supondo-se que assim fosse, como isto poderia justificar os inúmeros impactos ambientais gerados, principalmente devido ao alagamento de áreas ocupadas pelos povos indígenas e comunidades ribeirinhas.

Minhas dúvidas
Eu confesso que depois de conhecer os vários argumentos, tanto por parte dos que defendem, quanto dos que condenam a obra, tive uma percepção de que muitos deles são bem convincentes, o que talvez explique o surgimento de tantas e tão arraigadas opiniões diferentes, mas fico me questionando: Se alguém me perguntar se sou a favor ou contra a construção de Belo Monte, qual seria a minha resposta?
Todas as pessoas, antes de responderem a este tipo de pergunta, deveriam buscar o máximo de informações, vindas de todas as fontes possíveis. E foi o que eu procurei fazer.
Depois de muito pesquisar, consegui chegar a uma conclusão: A de que a pergunta não deve ser respondida simplesmente com uma única palavra - a favor ou contra - sem um complemento embasado que explique a razão da decisão por uma ou outra opção. É que neste caso, trata-se de um projeto que abrange diversos interesses, envolvendo uma complexidade muito grande de elementos técnicos, políticos, históricos, sociais, éticos, étnicos, culturais, entre outros, o que comprometeria bastante qualquer pessoa que se propusesse a tomar uma decisão apressada, a partir de conhecimentos rasos sobre o problema.
Durante minha busca por informações aqui na web, notei que alguns elementos poderiam me ajudar a entender melhor esta novela. Mesmo que eu não pudesse chegar rapidamente a uma conclusão, acredito que bem diferente do que ficar momentaneamente na dúvida sobre quem estaria ou não com a razão, seria permanecer constantemente indiferente às decisões tomadas pelo governo.

Interesses estrangeiros por trás das ONGs ?
Uma notícia me chamou a atenção. Este artigo (em inglês), publicado no guardian.com.uk, (clique aqui para ver a tradução que eu fiz), apresenta uma passagem que particularmente me deixou intrigado. A presidente Dilma, quando questionada pelo autor da reportagem sobre o porquê de ela estar sendo tão dura na defesa da construção da usina, teria respondido:
"Temos que estar atentos, pois me parece que alguns países estão tentando empurrar tecnologia para os países em desenvolvimento".
Fiquei então pensando. O que Dilma estaria querendo dizer exatamente com isto?
Será que na sua visão, os países que já detêm a tecnologia das chamadas fontes alternativas limpas de obtenção de energia elétrica, como a eólica e a solar, estariam apoiando algumas ONGs na luta contra a instalação de hidroelétricas no Brasil, aproveitando-se disso para ampliarem seus mercados, a fim de venderem posteriormente seus equipamentos?
Estaria desta forma ameaçada a soberania brasileira, com a ingerência feita de forma indireta por estes governos estrangeiros em nossas decisões estratégicas?
Se esta não é apenas uma tergiversação do governo, com o intuído de conseguir rapidamente a outorga para a construção da usina, só nos restaria então confiar na capacidade das inúmeras ONGs brasileiras e estrangeiras em perceberem se estariam sendo bem definidas as diferenças entre as atitudes revestidas de um real altruísmo étnico e humanista, e as de caráter disfarçadamente mercadológicos?
Para aqueles que esperam por respostas contundentes a estas perguntas, sinto decepcioná-los, mas não encontrei elementos conclusivos que pudessem sustentar esta hipótese provável de conspiração. O máximo que obtive foi um alerta semelhante feito pelo ex-presidente Lula, neste artigo do portal G1. Aliás, nesta reportagem há um ótimo infográfico que considero o mais bem feito de todos que vi sobre Belo Monte.

Um Brasileiro
O professor Osvaldo Sevá (foto) da FEM (Faculdade e Engenharia Mecânica) da Unicamp, mostra neste site, alguns textos, entrevistas e apostilas muito boas.
Ferrenho opositor da construção de Belo Monte, o professor Sevá, pelo seu vasto currículo e histórico de práticas em defesa do meio ambiente, deixa claro que, neste assunto, é indiscutivelmente uma autoridade respeitável, e confiável.
Para ele, o governo atual estaria tentando iludir a sociedade, usando como artifício, a propagação de um falso risco de desabastecimento de energia, que poderia então culminar com os temidos apagões, que tanto traumatizaram a população brasileira na época em que Fernando Henrique Cardoso era presidente, e que nos levou a um drástico e compulsório racionamento de energia elétrica. Depois deste episódio, tornou-se, de fato, muito fácil convencer a opinião pública da necessidade da melhoria e ampliação da matriz energética brasileira, e de preferência em caráter de urgência.
Eu disse melhoria e ampliação. É justamente neste ponto que o professor Sevá insiste para que façamos ampla distinção. Na opinião dele, se melhorássemos as linhas de transmissão e a eficiência dos sistemas fornecedores de energia já existentes, poderíamos dispensar a construção de grandes usinas como Belo Monte.

Minha opinião
Considerando, dentre tantos, apenas estes poucos problemas que coloquei acima, também acho que a construção da usina poderia ser evitada, se os governos brasileiros anteriores tivessem investido fortemente em educação e ciências, possibilitando o surgimento de novas tecnologias nacionais que pudessem viabilizar economicamente os equipamentos necessários ao funcionamento das fontes alternativas, notadamente as eólicas e solares. Talvez não estivéssemos precisando agora brigar internamente para preservar os direitos dos povos indígenas, que estão sendo ameaçados por estes projetos, e assim as grandes hidroelétricas se tornariam realmente, aí então, um mal desnecessário.


Fontes:
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