Cálculo da potência útil de um forno micro-ondas

Nesta semana realizei uma experiência de Física com meus alunos, para determinarmos a potência útil de um forno de micro-ondas. Inicialmente, aproveitei para diferenciar os conceitos de Potência Útil, que é aquela efetivamente usada pelo forno para aquecer os alimentos, e a Potência Total Consumida da rede elétrica, que pode ser vista indicada na maioria dos aparelhos. Uma parcela desta Potência Total Consumida é usada para fazer o aparelho funcionar, por exemplo para ligar as lâmpadas e mostradores digitais, girar a base de vidro no interior, e também para produzir as ondas no magnetron. A outra parcela (a maior porcentagem) é usada para agitar as moléculas de água, gordura, ou açúcares, contidos nos alimentos, e esta é a que chamaremos de Potência Útil, a qual queremos determinar.
A Experiência
Inicialmente medimos com uma balança a massa (m) de água contida em um becker, e com um termômetro, a temperatura inicial (ti). Ligamos o forno durante um tempo (T), e depois medimos a temperatura final (tf). A quantidade de calor recebida pela água (Q) foi então calculada pela fórmula deduzida na teoria da Termologia:

Q = m . c . Δt  =  m . c . (tf - ti)

onde c é o calor específico da água, que vale 1 cal/gºC.

No nosso experimento ficou:

Q = 227 . 1 . (43 - 25) = 4086 calorias

Para encontrarmos a potência útil (Pot út) dividimos Q por T:

Pot út = Q/T

Como o tempo de aquecimento, indicado no cronômetro do micro-ondas, foi de 30 segundos, obtivemos:

Pot út = 4086/30 136,2 cal/s

Atrás do forno, que eu empresto da sala dos professores para realizar o experimento,  estava indicada uma potência de 700 W, que corresponde ao valor da Potência Total Consumida  (Pot tot)  da rede elétrica.

Para compararmos Pot út     e   Pot tot     convertemos o valor da Pot út  em watts (W). Para isso, basta multiplicar por 4,2. Obtivemos, então:

Pot út = 136,2 . 4,2 572 W

Finalmente concluímos que dos 700 W fornecidos ao forno pela rede elétrica, somente 572 W foram utilizados para aquecer a água, o que dá uma eficiência de aproximadamente 82%. Vejam as contas que eu anotei na lousa do laboratório:








Para aqueles que quiserem realizar a experiência, caso não tenham balança, lembrem-se que cada 1 mL de água contém 1 g. Então basta um recipiente com graduação de volume para sabermos a massa de água.
Precaução 
Um alerta é para que tomem cuidado e não aqueçam a água por muito tempo, evitando que ela chegue próxima à temperatura de ebulição (em Piracicaba, 97ºC). O que pode acontecer é que ela pode não ferver durante o aquecimento, mas sim ao ser manipulada (balançada) no momento de retirá-la do forno. Veja neste vídeo curtinho, o perigo envolvido:

Fontes:
http://www.feiradeciencias.com.br/sala08/08_06.asp
http://www.tecmundo.com.br/eletrodomesticos/10978-mitos-e-verdades-sobre-o-micro-ondas.htm
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Calculando velocidades: uma simples e interessante prática de ensino de Física

Esta semana realizei com os alunos das primeiras séries do ensino médio da escola em que dou aulas de Física, uma atividade prática para determinarmos a velocidade dos veículos passando por uma avenida ao lado da escola, onde a máxima permitida é de 60 km/h (foto).

Momentos antes do início da aula, preparei as condições necessárias para a realização da prática. Tracei inicialmente três linhas no asfalto, separadas por uma distância de 5 metros cada uma. Dessa maneira, os alunos poderiam optar por duas medidas de deslocamento, de 0 a 5 m (foto), ou de 0 a 10 m.
Antes de levar os alunos para o local, conversei com eles na sala sobre as condições de segurança que deveríamos seguir para que ninguém corresse nenhum risco, afinal de contas, a responsabilidade nestes casos recorre sobre a minha pessoa. Feito isso, entreguei a eles alguns cronômetros e fomos a campo recolher as medidas. Cada aluno escolheu uma distância (5 m ou 10 m) e mediram o tempo que quatro veículos gastaram para percorrê-la. Vejam algumas fotos do experimento:

Depois, voltamos para a sala de aula, e pedi a eles que usassem o conceito de velocidade, que eu já havia trabalhado anteriormente nas teorias, para determinarmos os valores com as medidas obtidas na avenida. Como esta é uma atividade sugerida por uma Situação de Aprendizagem que consta do Caderno do Aluno, fornecido pelo Governo do Estado de São Paulo, aproveitei a tabela dada e começamos os cálculos. Depois de algum tempo, todos os alunos já haviam aplicado a fórmula de velocidade (V) que eu passo simplificadamente para eles dessa maneira:
$$\begin{equation*}\large V = \frac{D}{T}\end{equation*}$$ onde D simboliza uma distância percorrida, e T simboliza o intervalo de tempo gasto para percorrê-la. Vejam exemplos de valores de tempos anotados, correspondentes à distância de 10 m:
Os valores aproximados de velocidades da terceira coluna são dados em m/s, pois correspondem à divisão da distância (D)(no caso, 10 m) pelo tempo medido (T), em s (segundos). Os valores de velocidades da última coluna, dados em km/h, correspondem aos valores da terceira coluna multiplicados por 3,6 (fator de conversão de m/s para km/h). Ao explicar para os alunos a origem deste fator de conversão, eu mostro que são feitas duas conversões simultâneas: de metros (m) para quilômetros (km), e também de segundos (s) para horas (h). Como uma hora tem 60 minutos, e cada minuto tem 60 segundos, uma hora tem 60 vezes 60 segundos, que correspondem a 3600 segundos. Como um quilômetro (km) tem 1000 metros (m), se dividirmos 3600 por 1000, obtemos o fator 3,6.
Com esta atividade, os alunos fixaram melhor o conceito de velocidade, essencial para o posterior entendimento dos conceitos de aceleração e força, envolvidos nas Leis de Newton. Ao mesmo tempo, puderam constatar que alguns veículos ultrapassaram a velocidade permitida no local da avenida, como foi o caso do carro 2 e da moto, mostrados na tabela exemplificada acima.
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A importância da matemática na detecção das Ondas Gravitacionais


Não é sempre que a física produz notícias que se tornam mais visíveis na mídia do que as notícias sobre política, crimes ou esportes. Mas agora, em um espaço de tempo de quatro anos, surgiram duas delas que foram muito divulgadas: a descoberta do bóson de Higgs em 2012 e recentemente a detecção das vibrações do espaço-tempo conhecidas como ondas gravitacionais.

Ambas as descobertas foram consideradas pelos físicos como grandes realizações. A verificação da existência do bóson confirmou a explicação dada pela ciência sobre a origem das massas das partículas fundamentais. As ondas gravitacionais, por outro lado, confirmaram, em especial, que os buracos negros, por vezes, emparelham-se, girando em torno de si e, em seguida, fundem-se produzindo uma explosão cataclísmica. Durante um breve instante de tempo, essa explosão, detectada em setembro de 2015 pelo AdLIGO (um observatório muito grande localizado nos EUA, cujo funcionamento eu expliquei neste post de meu blog) produziu mais de 50 vezes a energia de todas as estrelas do universo juntas, como informou o físico Kip Thorne, durante a conferência de imprensa em 11 de fevereiro, no momento em que anunciou a descoberta.

Quase todos os físicos acreditavam firmemente que o Higgs teria de existir (ou então que teriam passado suas carreiras acreditando em um falso modelo matemático). Da mesma forma, ninguém duvidava que Einstein estava certo sobre  as ondas de gravidade (ou que a sua teoria da relatividade geral estava correta na previsão da existência delas - houve um tempo em que o próprio Einstein teve suas dúvidas). Ambas as descobertas têm algo em comum que reflete uma realização ainda mais surpreendente: o poder da mente humana para discernir características profundamente escondidas sobre a realidade física.
Em ambos os casos, a ideia de que tais fenômenos exóticos existiriam veio do poder do cérebro humano - decifrar o significado físico dos símbolos matemáticos manipulados apenas com a utilização de lápis e papel. Experimentalistas sabiam onde (e como) procurar apenas seguindo roteiros criados pelas mentes dos seres humanos, os quais podiam ver o significado oculto em sua matemática.
Peter Higgs deduziu a existência de uma nova partícula, contemplando as consequências de algumas equações complicadas. Seu artigo apresentando as equações foi rejeitado (os revisores diziam que era apenas matemática sem significado físico). Então Higgs olhou para as equações novamente e notou que estava implícita a existência da partícula, agora nomeada em homenagem a ele. De alguma forma, a sua matemática mostraria algo sobre o universo que ninguém mais tinha suspeitado anteriormente.

Einstein, de forma semelhante, descobriu que havia muito mais física na matemática da relatividade geral do que ele inicialmente conhecia. Após anos de luta, ele reuniu as equações que descrevem a gravidade, e previu com precisão a curvatura da luz de uma estrela passando próxima ao sol. Um pouco mais tarde, ele olhou para suas equações novamente e percebeu que elas continham uma surpresa: ondulações no tecido do espaço-tempo que enviariam mensagens através do universo. Mas como seriam muito fracas, pensou, jamais poderiam ser detectadas por nós.

Mais tarde, Einstein perdeu a fé em sua própria matemática. Na década de 1930, ele tentou mostrar que as ondas gravitacionais não existiriam realmente. Ele preparou um documento tentando mostrar que elas eram fantasmas puramente matemáticos, e não fenômenos com efeitos físicos reais. Mesmo assim, as ondas de gravidade permaneceram como uma implicação teórica da relatividade geral.

Examinando a história da física encontram-se mais exemplos do poder da matemática revelando segredos da realidade. A relatividade geral forneceria mais surpresas do que apenas as ondas gravitacionais, por exemplo. Os buracos negros, as lentes gravitacionais e até, de certa forma, a expansão do universo surgiram a partir das equações de Einstein, antes mesmo de qualquer astrônomo observá-los. Os Quarks, os constituintes dos prótons e nêutrons, mostrou-se na matemática de Murray Gell-Mann antes das provas de sua existência terem sido reveladas em aceleradores de partículas. A antimatéria, o combustível do futuro, na ficção científica, tornou-se um fato científico na mente matemática de Paul Dirac antes dos experimentalistas notarem antipartículas nos raios cósmicos.

Talvez o análogo mais próximo das ondas gravitacionais, porém, tenha sido o aparecimento das ondas de rádio na matemática de James Clerk Maxwell descrevendo o eletromagnetismo. Na década de 1860, Maxwell trabalhou a matemática da eletricidade e do magnetismo e descobriu que a própria luz é uma onda eletromagnética. 
Maxwell quase instantaneamente percebeu que outras ondas eletromagnéticas de frequências diferentes poderiam existir. Duas décadas mais tarde, o físico alemão Heinrich Hertz (figura) procurou e encontrou as novas ondas que Maxwell havia previsto. 

Não se acredita que as ondas gravitacionais irão revolucionar a sociedade da maneira como aconteceu com as ondas de rádio. Mas elas certamente irão abrir um novo campo para explorar o cosmos, da mesma forma como foi feita com os radiotelescópios. De qualquer maneira, independentemente da sua eventual utilização prática, as ondas de gravidade irão sempre ficar como um sinal de que a matemática concebida na mente humana coexiste, em certo sentido, com o tecido da realidade.
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Três erros que penalizaram quem não conhecia as leis da Física

Gostaria de mostrar aqui três casos em que as pessoas se deram mal por não terem estudado, entendido, ou respeitado algumas leis da Física. 
1- Conservação da Energia Mecânica
A Energia Mecânica é uma das formas de energia que pode ser entendida como a soma de dois outros tipos de energia, a energia devido à altura (Energia Potencial Gravitacional), e a energia devido à velocidade (Energia Cinética)Por exemplo, se desprezarmos os atritos, quando um pêndulo é solto de uma certa altura, com o fio esticado, durante a descida ele perde energia de altura mas ganha energia de velocidade, e assim a soma das duas permanece constante. Durante todo seu movimento a energia mecânica se conserva, e sendo assim o pêndulo retornará exatamente no ponto de onde foi solto. Reparem no vídeo a seguir como o professor americano Walter Lewin toma o cuidado de permanecer quieto mantendo o queixo no mesmo lugar durante uma experiência feita usando um pesado pêndulo esférico. Note também que não é dado nenhum impulso inicial.
     


Agora veja o que acontece com a moça que tenta repetir a experiência sem se preocupar em manter o rosto na mesma posição. A falha foi, antes de tudo, do homem que não soube instruí-la corretamente.

2-Primeira Lei de Newton (Inércia)
Esta lei diz que todo corpo no qual a força resultante sobre ele é nula, tende a permanecer no estado em que se encontra. Se está em movimento tende a permanecer em movimento, se está em repouso tende a permanecer em repouso. De certa forma parece óbvio, mas algumas pessoas não se dão conta disto, e ao tentarem descer de um veículo em movimento, esquecem-se de continuar correndo para a frente ao tocarem o solo, podendo cair e se machucar, como este cidadão que tenta descer do metrô em movimento. 

3-Terceira Lei de Newton (Ação e Reação)
Esta lei diz que a toda ação corresponde uma reação contrária, e de mesma intensidade. Isto quer dizer que quando alguém, por exemplo, atira com um rifle, a bala recebe um impulso do rifle, mas exerce no rifle a mesma intensidade do impulso que recebeu, só que no sentido contrário. Quem já tem uma certa experiência conhece o chamado "coice" da arma, e procuram encostá-la no ombro, mas veja o que fez este cidadão do vídeo.

Como se pode ver, o conhecimento de alguns conceitos básicos de Física também podem evitar que soframos alguns acidentes perfeitamente evitáveis.
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Por que os peixes parecem maiores dentro da água?

Este ano resolvi fazer um curso de mergulho que culminou com uma viagem à Ilhabela, litoral de São Paulo (foto), para curtirmos e colocarmos em prática os treinamentos realizados na piscina. 
O sinal que estou fazendo com a mão é de que está tudo OK, linguagem mundialmente usada no mergulho.

Durante a parte teórica do curso, notei que havia muita física aplicada para se entender os problemas que podem surgir devido às variações de pressão, principalmente nos ouvidos e pulmões. Na apostila que eles fornecem, estabelecem-se também as relações entre pressão, volume e temperatura, através de fórmulas bem conhecidas da física.
Outro conceito físico diretamente ligado aos mergulhos envolve a óptica, e diz respeito à refração da luz. Em uma das falas dos mergulhadores que dão o curso, ouvi a respeito da sensação de ampliação que temos dos objetos vistos debaixo d'água. Os peixes aparentam ser maiores do que o tamanho real. Na realidade, o que eles estão querendo dizer é que há uma aproximação das imagens, devido ao dioptro plano formado entre o ar contido no interior da máscara e a água, dando uma impressão de que os objetos estão ampliados. 
Vou exemplificar:
O valor do índice de refração do ar que está dentro da máscara do mergulhador é 1, e o da água do mar é de aproximadamente 3/2.
Suponha que um mergulhador (figura) esteja observando um peixe à distância real (D) de 3 metros dele. Para calcular a que distância a imagem do peixe será vista (d), basta multiplicar (D) por 2, e a seguir dividir por 3:
$\begin{equation*}\large d = D . 2 /3\end{equation*}$
$\begin{equation*}\large d = 3 . 2 /3\end{equation*}$
$\begin{equation*}\large d = 2 m\end{equation*}$
Deste modo, o peixe que está a 3 metros de distância, aparentará estar a apenas 2 metros do mergulhador, ou seja, houve uma "aproximação" de 1 metro, devido ao efeito da refração.
Veja outro caso de uma foto tirada pelo pessoal da escola em que fiz o curso, durante o treinamento na piscina:









Notem a nítida diferença de posições e tamanhos das pessoas, quando vistas pelo ar e pela água. 
Como se vê, estudar física também nos ajuda a entender um pouco melhor os efeitos da prática do mergulho.  
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Infravermelhos podem ser vistos pelos nossos olhos

Até hoje sempre ensinei aos meus alunos  que os nossos olhos não estão capacitados para enxergar os raios infravermelhos, pois eles estão fora do espectro visível, mas descobri lendo um artigo da Discover Magazine que pesquisa recente mostrou que em condições especiais, dois fótons de infravermelho de baixa energia podem se juntar na retina formando imagens visíveis. Experiências realizadas com 30 participantes, mostraram que eles relataram ter visto uma pálida linha verde de luz ao observarem raios infravermelhos. Esta constatação experimental foi considerada inicialmente muito estranha, pois estes raios são demasiadamente fracos para serem vistos pelos seres humanos.
Se quisermos ver todos os raios infravermelhos ainda precisaremos de óculos ou câmeras especiais, mas simulações e cálculos de computador da equipe de pesquisa revelaram um mecanismo que ocorre naturalmente em nossos olhos, e que nos permite vislumbrar a radiação infravermelha de baixa energia, sem o auxílio da tecnologia.

Para entender melhor, observe os infográficos que eu traduzi e adaptei do artigo da Discover. Eles mostram primeiramente o processo que se dá na percepção das cores do nosso espectro visível, através da visão normal, e depois o processo de percepção de uma luz verde, a partir de dois raios infravermelhos de baixa energia que incidem no olho, e que após terem atravessado o cristalino, atingem a retina e juntam-se para a formação de uma imagem que pode ser percebida, pois o pulso passa a ter energia suficiente para ser interpretado pelo cérebro como luz visível.

Visão normal
Processo de percepção das cores na visão normal. (Clique na imagem para ampliar)
Visão do Infravemelho
Processo de percepção de luz verde a partir de infravermelhos. (Clique na imagem para ampliar)





Fontes:
http://discovermagazine.com/2015/oct/3-seeing-the-invisible
http://www.pnas.org/content/111/50/E5445.full
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Energia Solar: quase um quatrilhão de kWh por dia.

A energia devido à irradiação solar que atinge o nosso planeta diariamente corresponde a cerca de 970 trilhões de kWh. Poderíamos aproveitar melhor esta energia para a produção de eletricidade, cuja demanda aumenta rapidamente no mundo. Com certeza, os custos ambientais seriam bem menores, comparados às hidrelétricas, termoelétricas, e usinas nucleares, as três maiores responsáveis por quase toda energia elétrica gerada atualmente.
Energia Solar Concentrada
A CSP (sigla em inglês para Concentrated Solar Power) é uma forma de captação de energia solar que usa espelhos ou lentes que concentram a energia térmica luminosa do Sol em um ponto ou uma região focal.  
Há muito tempo que já se conhece e são usados modelos que captam e concentram os raios solares através de espelhos, com a finalidade de se otimizar o efeito provocado pelo aquecimento do Sol. Veja a gravura mostrando um concentrador cilíndrico-parabólico de John Ericsson, datado do ano de 1870. 

Neste semestre, em uma disciplina eletiva sobre energias, estou desenvolvendo modelos com meus alunos, usando duas parabólicas que estavam desativadas na escola. Inicialmente tentamos usar papel alumínio como material refletor, e depois, para melhorar a eficiência, usamos pedaços de espelhos. Nos testes, eles puderam perceber que na região do foco, a temperatura aumenta rapidamente (fotos).

Tipos principais de usinas solares
Há diferentes modelos de usinas solares usadas em diversas partes do mundo, sobretudo na Espanha e nos Estados Unidos. Vou ater-me neste post aos três tipos mais difundidos.

1) Disco Parabólico:
Neste tipo mostrado na foto, no foco do espelho parabólico, é fixado um motor do tipo Stirling. O funcionamento deste motor está simplificado na animação a seguir. As altas temperaturas fazem com que haja uma expansão do gás no interior, deslocando os pistões, que por sua vez provocam o giro de uma roda que gera energia elétrica.  
Este tipo de motor funciona somente com diferenças de pressões e temperaturas, sem explosões, e sem produção de gases de escape, como ocorre nos motores a combustão dos automóveis.

2) Calhas Cilíndricas Parabólicas:
Neste tipo de usina solar, diversas calhas parabólicas se movimentam seguindo o Sol, e na linha do foco delas passa uma tubulação reta preenchida com fluido, que pode ser água, ou uma solução de sal derretido, produzindo vapor à alta pressão que é conduzido a uma turbina acoplada a um gerador de eletricidade. Veja a foto de uma delas:
3) Torre Central com espelhos planos direcionados:
Neste tipo de usina solar inclui-se a maior existente no mundo, que é a de Ivanpah, situada no Deserto de Mojave, Califórnia (EUA), e que foi financiada pela Google. Suas três torres podem gerar uma potência de até 392 MW, e está funcionando desde fevereiro de 2014. Quem quiser conhecê-la um pouco mais sugiro os dois vídeos curtinhos a seguir.


Futuro
Um estudo indicou que a Energia Solar Concentrada pode vir a representar 25% das necessidades de energia no mundo até 2050. A Espanha é líder deste tipo de usina de energia, com mais de 50 projetos aprovados, e exporta sua tecnologia para vários países. O maior crescimento é previsto para áreas de grande insolação, como México, África, sudoeste dos EUA, Oriente Médio, Austrália, entre outros. No Brasil, como sempre, começamos a engatinhar recentemente nesta área, mas apenas com modelos modestos, e ainda em estudos. A região Nordeste de nosso país seria a mais indicada para implantação, da mesma forma como acontece com as usinas eólicas, pois lá, assim como venta muito, também há muita insolação durante o ano.

Efeitos à vida selvagem
Como em todas as inovações tecnológicas, já há grupos de ecologistas que alertam para os danos que podem ser causados à flora e fauna das regiões onde funcionam estas usinas. Estudos feitos por eles indicam que insetos podem ser atraídos pela luz brilhante, e como resultado, as aves que se alimentam deles podem ser mortas queimadas pelo intenso calor, caso elas voem próximas dos focos de luz concentrada pelos milhares de espelhos (foto). Isto também pode afetar aves de rapina que se alimentam destas aves.
Mas ao contrário do que foi alardeado por alguns adversários da usina de Ivanpah, que produziram um relatório exageradamente catastrófico sobre os efeitos, enumerando dezenas de milhares de mortes de aves que vivem próximas àquela usina, um relatório rigoroso feito em mais de seis meses mostrou que apenas 133 aves foram chamuscadas pelo calor, número relativamente baixo, comparado com as centenas de milhões que morrem anualmente devido às colisões com janelas de vidro, veículos, e linhas de energia.

Concluindo
Já passamos da hora de aproveitarmos melhor a energia que o Sol nos manda todos os dias. Penso que devemos incentivar e divulgar cada vez mais as vantagens de uma diversificação da matriz energética mundial, buscando alternativas como estas. Eu tento fazer a minha parte, informando aos meus alunos sobre os benefícios que podem ser trazidos, principalmente se levarmos em consideração o grande aumento do consumo de eletricidade. As consequências trazidas por meios de obtenção de energia elétrica que se utilizam da queima de combustíveis fósseis, ou outras formas não sustentáveis do ponto de vista do meio ambiente, como na produção de resíduos radiativos, ou através da inundação de grandes áreas que poderiam ser destinadas à produção de alimentos, podem ser fatais para a vida futura no nosso planeta. 
E para finalizar, deixo um interessante (e curtinho) vídeo publicitário, mostrando os valores da energia solar de uma forma bem criativa.
  
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/Concentrated_solar_power
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Perdido em Marte e as críticas às explorações espaciais

O filme Perdido em Marte é uma bela obra de ficção científica, mas como ocorre frequentemente em todos os filmes, algumas situações fogem um pouco do que seria possível acontecer na realidade. Em alguns casos a intensão é tornar a trama mais interessante, a fim de prender a atenção do público desde o início até o fim. A grande tempestade de areia, por exemplo, jamais poderia ter tido força semelhante à mostrada. Há também outras pequenas incoerências perceptíveis para alguns olhos mais exigentes, como a ausência dos efeitos que a gravidade bem menor de Marte provocaria nos movimentos e caminhadas dos astronautas. 
Algumas filmagens foram feitas em um local do sul da Jordânia, conhecido como Vale da Lua (foto). Os exploradores marcianos não aparentam ter um peso correspondente a 38% do que teriam na Terra. Para exemplificar, isto significa que uma pessoa de 70 kg, lá em Marte, teria a sensação de se movimentar como se tivesse apenas 27 kg.

Água e plantas
Algumas missões robóticas enviadas a Marte já encontraram sinais de água no subsolo marciano que poderia ser usada por astronautas para cultivar plantas, as quais serviriam de alimento e também para produção de combustíveis para os foguetes.
O satélite que orbita Marte desde 2006, chamado de Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA, com sua poderosa câmera de alta resolução de imagens, mapeou o planeta, o que permitiu compreender melhor o relevo, o clima, a atmosfera e também os possíveis locais que poderiam indicar a presença de água. 
Na verdade, como ainda não há comprovação de que há uma quantidade de água que pudesse ser aproveitada suficientemente, no filme, fizeram com que o astronauta perdido optasse por obtê-la de outra maneira, a partir da hidrazina, um tipo de combustível usado em foguetes.

Radiação
O jipe Curiosity (imagem), que na época de seu lançamento, no final de 2011, foi tema de um post deste blog, levou consigo o detector RAD, projetado para medir a radiação do ambiente marciano.
O jipe Curiosity, que pousou em 2012 em Marte, levou um medidor da radiação do ambiente.
Esses dados são essenciais para a compreensão de como os astronautas precisariam estar protegidos ao fazerem uma caminhada ao ar livre por lá. O protagonista do filme, Mark Watney, interpretado pelo ator Matt Damon, não poderia ficar tanto tempo exposto às radiações de Marte sem que corresse o risco de sofrer algumas sequelas, como câncer, por exemplo.

Naves, Habitações e Veículos 
O Curiosity, com massa de uma tonelada, foi o objeto mais pesado enviado a Marte até agora, e pensando no futuro, o laboratório JPL está desenvolvendo tecnologias para conseguir pousar cargas ainda maiores e mais pesadas. Uma delas é o projeto do Desacelerador Supersônico de Baixa Densidade (foto).
O Desacelerador Supersônico de Baixa Densidade, durante as fases de testes e construção.
Trata-se de um grande disco que teria a função de inflar-se durante a entrada da atmosfera de Marte, aumentando o atrito e diminuindo a velocidade, para que os paraquedas pudessem resistir ao se abrirem em seguida, pousando com segurança, por exemplo, um veículo grande, parecido com o do filme (imagens a seguir) e posteriormente equipamentos e partes de uma estação habitável, ou uma nave tripulada, que é o objetivo futuro da NASA. O desembarque auto controlado do Curiosity em 2012 foi um marco importante no caminho para essa capacidade.


Comunicações
Além das missões espaciais a Marte, o JPL administra o Deep Space Network da NASA. Esta rede também seria usada para estabelecer comunicações vitais com a nave espacial através do sistema solar, e manter contato com os futuros astronautas em viagens entre a Terra e Marte.

Finalizando com uma reflexão
Diante das notícias recentes sobre as evidências de água em Marte, e da relação estabelecida com as condições que indicam a possibilidade de o planeta abrigar algum tipo de vida, mesmo que microscópica, vi no facebook, em um compartilhamento de uma amiga, uma certa crítica à procura por vida em Marte, sugerindo que deveríamos melhorar primeiramente as condições de vida existente em nosso próprio planeta. Veja a imagem. 
Eu concordo plenamente que poderíamos cuidar melhor de todos os seres vivos da Terra, mas os gastos com as corridas espaciais atualmente correspondem a uma fração muito pequena do que se gasta, por exemplo, em armamentos de guerra, que provocam diversos problemas, entre eles o de uma quantidade enorme de refugiados que não encontram abrigos adequados em outros países. O que me deixa muito triste é pensar que muitas destas guerras têm uma parcela de causas religiosas. Então, já que é para se fazer perguntas, por quê não pensamos todos em acabar com religiões que adotam práticas tão radicais? Por quê não procurarmos algum meio de parar de produzir ou financiar tantos armamentos de guerra? 
Se pensarmos como uma espécie que já alcançou um elevado estágio evolutivo, e que pretende se manter, não podemos esquecer que por enquanto há uma certeza: o Sol, como toda estrela, teve seu começo, é atualmente vital para nós, mas em um momento, daqui a bilhões de anos, começará a se inflar, atingindo Mercúrio, Vênus e provavelmente queimando também o nosso planeta, e se resolvermos que devemos permanecer sempre grudados aqui no nosso mundinho, fatalmente seremos uma espécie extinta. Isto sem falar do que pode acontecer muito antes disso, com o surgimento de catástrofes naturais, pragas ou mudanças repentinas no clima.  
Eu não sei (mas imagino) qual é a finalidade destas campanhas que tentam nos convencer de que cancelando os gastos e aspirações envolvidos nestas explorações espaciais, automaticamente o dinheiro e as atenções ficariam voltadas para a melhoria das condições de vida dos povos do nosso planeta. Espero sinceramente que não esteja havendo mais uma vez na história, uma tentativa das religiões cristãs de desestimularem a descoberta de vida em outro planeta, o que se fosse constatado, as obrigaria a fazer uma revisão dos livros que tanto veneram, e cujas passagens aceitam como verdades divinas e inquestionáveis. De novo, como ocorreu no episódio do Heliocentrismo versus Geocentrismo eles correm o risco de "quebrarem a cara", mas possivelmente venham se retratar alguns séculos depois, como por exemplo a desculpa oficial feita durante o papado de João Paulo II, em  1992, por terem condenado Galileu à prisão no século 17.

Fontes:
http://www.jpl.nasa.gov/news/news.php?feature=4731#martian-skip
http://idgnow.com.br/internet/2015/10/01/5-tecnologias-reais-da-nasa-que-estao-no-filme-perdido-em-marte/
http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/10/9-erros-e-acertos-de-perdido-em-marte.html
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O uso de diamantes no estudo do magnetismo terrestre

Um dos mistérios ainda não decifrados pela Ciência diz respeito ao comportamento do campo magnético da Terra. Como e quando ele teria surgido ao longo da história de nosso planeta? Quais as mudanças na sua direção que ocorreram e que ainda podem ocorrer no futuro?

Mudanças dos polos magnéticos   
Alterações na posição dos polos magnéticos já ocorreram e ocorrem frequentemente. Entre os anos de 1580 e 1820, notou-se uma variação de 35° na direção apontada pela agulha das bússolas. 
Através de estudos de rochas do fundo do oceano, esfriadas a partir de material de lava quente vinda do núcleo terrestre, pode-se concluir que a polaridade da Terra inverte-se mais ou menos a cada um milhão de anos.

Várias teorias têm surgido para tentar explicar como funciona o que seria uma espécie de dínamo gerador de magnetismo no interior do planeta. A hipótese mais aceita é de que esta geração se dá por causa de um fluxo de material derretido, principalmente de ferro no núcleo central da Terra, criando uma corrente de elétrons. E já se sabe de longa data (Experiência de Oersted - 1819) que uma corrente elétrica produz próxima a ela um campo magnético.

Pressionando com diamantes
De acordo com as informações que obtive deste artigo recente da Science News, o físico Kei Hirose, especialista em minerais sob alta pressão, no laboratório do Instituto de Tecnologia de Tóquio, juntamente com seus colegas, para recriar as condições de altíssimas pressões e temperaturas do núcleo da Terra, comprimiu pequenos discos de ferro, com apenas cerca de 20 micrômetros de diâmetro, e 10 micrômetros de espessura (cerca de um décimo da espessura de uma folha de sulfite) com auxílio de dois cones de diamante, de 0,2 quilates, como mostrado na figura. O diamante foi usado por possuir a propriedade de dureza maior do que a do aço.
Os discos de ferro, comprimidos durante 30 minutos foram então aquecidos através de um laser infravermelho, chegando a atingir temperaturas de vários milhares de graus. Já que os elétrons no ferro transportam carga elétrica e calor, pode-se medir a condutividade elétrica, e depois estimar a condutividade térmica. Os pesquisadores da equipe de Hirose, usaram eletrodos de ouro e platina, para o ferro transportar corrente elétrica através da amostra. A queda de tensão possibilitou saber quão fortemente o ferro resiste ao fluxo de elétrons.

Provavelmente, ainda demorará um tempo para entendermos por completo como funciona o mecanismo gerador do campo magnético da Terra, mas a cada dia surgem novidades e descobertas neste sentido. Para quem quiser saber mais detalhes destas novidades, sugiro a leitura completa do artigo da Science News (em inglês) cujo link está relacionado nas fontes a seguir.

Fontes:
https://www.sciencenews.org/article/magnetic-mystery-center-earth 
http://www.coladaweb.com/fisica/fisica-geral/magnetismo-terrestre-campo-magnetico-da-terra
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A influência das diferenças de gravidade no atletismo

No atletismo, durante as provas de arremesso de dardo, peso, disco, e martelo, há diversos fatores que influem na obtenção de uma boa marca. No que se refere aos atletas, estes fatores se resumem à velocidade inicial (Voimprimida ao objeto lançado, e o ângulo de inclinação de saída (θ), que deverá ser o mais próximo possível de 45º. Mas há outros dois fatores externos que não dependem dos lançadores: a resistência do ar e a aceleração da gravidade (g) do local onde as provas estão sendo realizadas. No caso da gravidade, quanto maior o seu valor, menor será o alcance (A) obtido.
Figura indicando o ângulo de inclinação (θ), a velocidade inicial (Vo) e o alvance (A).

Variações da gravidade
O valor da gravidade varia de acordo com a latitude e altitude do local do nosso planeta. Neste artigo há uma tabela que mostra diversos valores da gravidade calculados a partir de latitudes e altitudes pré determinadas. Pelo fato de a Terra ser levemente achatada nos polos, a gravidade nos locais mais próximos deles é um pouco maior, como é o caso de Toronto, onde estão sendo realizados os Jogos Pan-Americanos de 2015.   
A título de comparações, farei aqui algumas simulações simplificadas, utilizando o valor do alcance obtido na prova feminina de arremesso de dardo, onde a nossa atleta Jucilene de Lima (foto no início do post), conquistou recentemente a medalha de bronze, com a marca de 60,42 m. Fiz um cálculo para determinar a velocidade com que o dardo teria saído da mão dela, usando a fórmula:
$$\begin{equation} \large Vo = \sqrt {\frac{A.g}{sen(2θ)}} \end{equation}$$
onde (A) corresponde ao alcance, (g) à gravidade, e (θ) ao ângulo de inclinação. Desprezei a diferença de altura entre o chão e o ponto de lançamento e a ação do atrito com o ar, adotei g = 9,806 m/s², correspondente à latitude (43º40'N) e altitude (76 m) de Toronto, e considerei que Jucilene tivesse lançado o dardo com inclinação exata de 45º. A velocidade encontrada desta forma foi de 24,34 m/s (87,63 km/h).
Se ela tivesse arremessado o mesmo dardo exatamente nas mesmas condições, no Rio de Janeiro, cidade que sediará os Jogos Olímpicos de 2016, onde g = 9,786 m/s², correspondente à latitude de 22º54'S, e altitude de 2 m, o alcance obtido teria sido de 60,54 m, 12 cm a mais do que em Toronto.

No artigo que pesquisei, há uma informação de que um certo professor Kirkpatrick, na qualidade de físico, tentou sensibilizar autoridades do esporte nos Estados Unidos, alertando sobre estas diferenças, mas com surpresa teria observado um grande desinteresse pelo assunto. Diante da condição de que os recordes, com o tempo, irão necessitar de dígitos cada vez mais precisos, talvez algumas destas especificações que levem em consideração determinadas variáveis como a gravidade do local possam ser enfim consideradas no futuro. 

Fontes
http://sites.unisanta.br/teiadosaber/apostila/fisica/a_fisica_no_esporte-fisica1109.pdf

http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/olimpiada/noticia/2015/07/jucilene-de-lima-e-bronze-no-lancamento-de-dardo-4806320.html


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