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Potência de um aquecedor

Vou resolver aqui mais esta questão que caiu na prova de Promoção por Mérito para professores do Estado de São Paulo:


Esta questão é muito semelhantes a uma atividade experimental que realizo com meus alunos, e compartilhei aqui no blog no post sobre o cálculo da potência útil de um micro-ondas.

Solução:
Calcula-se primeiramente a quantidade de calor recebida pela água:
Q = m . c . (tf - ti)
onde;
Q = calorias.
m = massa.
c = calor específico.
tf = temperatura final.
ti = temperatura inicial.

Q = 200 . 1 . (60 - 19)

Q = 8.200 cal = 34.276 J

Para calcular a potência, é só dividir pelo tempo de aquecimento:

Pot = 34.276 / 153

Pot = 224 W           Alternativa (D)

Um interessante experimento sobre convecção

Uma forma de transmissão do calor que ocorre geralmente nos líquidos e gases é a convecção. Ela surge quando, por algum motivo, uma região se esquenta mais e sobe, ou uma delas se esfria e desce, provocando correntes de movimentos ascendentes ou descendentes no fluido. Este efeito pode ser observado e aproveitado em diversas situações práticas. 
Em sistemas de aquecimento solar, por exemplo, se as placas coletoras estiverem em um nível abaixo do reservatório, não há necessidade de instalar bombas para que a água quente suba para ser armazenada.
Os praticantes de asa-delta ou parapente (foto), para aproveitarem ao máximo seus passeios aéreos, buscam localizar funis de correntes térmicas ascendentes. Alguns pássaros também aproveitam este fenômeno natural para ganharem maior altitude.

O experimento 
Para que meus alunos visualizassem melhor este fenômeno, decidi realizar com eles um experimento no laboratório da escola, usando um aquário preenchido com água à temperatura ambiente. Com a ajuda de um funil, um aluno despejou água quente com corante laranja no fundo do aquário. Outra aluna despejou água gelada com corante azul na superfície. Assim pudemos observar claramente a água quente subindo e a fria descendo. Vejam o vídeo que gravei:
No final, tirei uma foto do resultado que ficou bem interessante.

Como funciona o mecanismo que avisa quando a sanduicheira elétrica está pronta para uso?

Em uma aula de Física mostrei aos alunos uma aplicação prática do conceito de dilatação térmica, relacionado ao controle e funcionamento de uma sanduicheira elétrica. 
Alguns dias antes da aula, desmontei uma sanduicheira velha e retirei uma pequena lâmina bimetálica circular que estava próxima à chapa de aquecimento.
A maioria das sanduicheiras acende uma das lâmpadas quando a colocamos na tomada, e depois de algum tempo, outra lâmpada (verde), avisa que a sanduicheira está pronta para uso.

A aula
Ao iniciar a aula, perguntei primeiramente aos alunos se eles sabiam dizer como a sanduicheira reconhecia o momento certo de acender a lâmpada verde. A maioria deles não soube informar. Comecei fazendo uma demonstração simples com um pedaço de papel com uma das faces laminada. Vejam um exemplo:
Logo depois, expliquei que podemos substituir o papel e o alumínio por dois metais com diferentes coeficientes de dilatação para criarmos uma lâmina bimetálica, como a usada na sanduicheira. Ao ser aquecida, ela também se dobra, empurrando o interruptor e acendendo a luz verde. Logo após colocar a pequena lâmina na chapa de um aquecedor elétrico, pudemos perceber que ela se dobrava repentinamente, dando até um "pulinho" na chapa do aquecedor. Vejam: 
Esta dobra rápida na lâmina é responsável por pressionar o interruptor do circuito. Os alunos se divertiram e ao mesmo tempo aproveitaram para entender a importância de determinados fenômenos físicos e suas utilidades em nosso dia-a-dia.

Cálculo da potência útil de um forno micro-ondas

Nesta semana realizei uma experiência de Física com meus alunos, para determinarmos a potência útil de um forno de micro-ondas. Inicialmente, aproveitei para diferenciar os conceitos de Potência Útil, que é aquela efetivamente usada pelo forno para aquecer os alimentos, e a Potência Total Consumida da rede elétrica, que pode ser vista indicada na maioria dos aparelhos. Uma parcela desta Potência Total Consumida é usada para fazer o aparelho funcionar, por exemplo para ligar as lâmpadas e mostradores digitais, girar a base de vidro no interior, e também para produzir as ondas no magnetron. A outra parcela (a maior porcentagem) é usada para agitar as moléculas de água, gordura, ou açúcares, contidos nos alimentos, e esta é a que chamaremos de Potência Útil, a qual queremos determinar.
A Experiência
Inicialmente medimos com uma balança a massa (m) de água contida em um becker, e com um termômetro, a temperatura inicial (ti). Ligamos o forno durante um tempo (T), e depois medimos a temperatura final (tf). A quantidade de calor recebida pela água (Q) foi então calculada pela fórmula deduzida na teoria da Termologia:

Q = m . c . Δt  =  m . c . (tf - ti)

onde c é o calor específico da água, que vale 1 cal/gºC.

No nosso experimento ficou:

Q = 227 . 1 . (43 - 25) = 4086 calorias

Para encontrarmos a potência útil (Pot út) dividimos Q por T:

Pot út = Q/T

Como o tempo de aquecimento, indicado no cronômetro do micro-ondas, foi de 30 segundos, obtivemos:

Pot út = 4086/30 136,2 cal/s

Atrás do forno, que eu empresto da sala dos professores para realizar o experimento,  estava indicada uma potência de 700 W, que corresponde ao valor da Potência Total Consumida  (Pot tot)  da rede elétrica.

Para compararmos Pot út     e   Pot tot     convertemos o valor da Pot út  em watts (W). Para isso, basta multiplicar por 4,2. Obtivemos, então:

Pot út = 136,2 . 4,2 572 W

Finalmente concluímos que dos 700 W fornecidos ao forno pela rede elétrica, somente 572 W foram utilizados para aquecer a água, o que dá uma eficiência de aproximadamente 82%. Vejam as contas que eu anotei na lousa do laboratório:

Para aqueles que quiserem realizar a experiência, caso não tenham balança, lembrem-se que cada 1 mL de água contém 1 g. Então basta um recipiente com graduação de volume para sabermos a massa de água.
Precaução 
Um alerta é para que tomem cuidado e não aqueçam a água por muito tempo, evitando que ela chegue próxima à temperatura de ebulição (em Piracicaba, 97ºC). O que pode acontecer é que ela pode não ferver durante o aquecimento, mas sim ao ser manipulada (balançada) no momento de retirá-la do forno. Veja neste vídeo curtinho, o perigo envolvido:

Fontes:
http://www.tecmundo.com.br/eletrodomesticos/10978-mitos-e-verdades-sobre-o-micro-ondas.htm

Experiência de dilatação do latão

Em uma aula prática de Física usei um dilatômetro para medir o coeficiente de dilatação linear do latão. O vapor de água gerado em um recipiente fechado, colocado em cima de um aquecedor, é transportado para dentro de um tubinho de latão, aquecendo-o e fazendo com que um relógio medidor indique, com precisão de centésimos de milímetro (0,01 mm), o quanto o metal dilatou.
Montagem do experimento no laboratório da escola. A extremidade direita é fixada no ponto 500 mm.


Na montagem do experimento, fixamos a extremidade direita do tubinho de latão exatamente no ponto da régua marcando 500 mm. (foto)
Na outra extremidade, colocamos um extensor de metal conectando o tubinho à ponta do relógio medidor, exatamente no ponto da régua marcando 0 mm (foto).
A temperatura ambiente, medida no termômetro da sala, no início do experimento, era de 20ºC (foto). Consideramos que o tubinho de latão estaria nesta mesma temperatura inicial.
Quando a temperatura da água no interior do recipiente aquecido, atingiu 97ºC, o vapor começou a ser produzido e chegou ao interior do tubinho de latão, e então anotamos a variação do seu comprimento, que foi de 0,75 mm (foto).
Com estes dados, fizemos então o cálculo do coeficiente de dilatação do latão.
Sabemos que a dilatação linear de um material (ΔLdepende basicamente de três fatores, do comprimento inicial (Lo), do tipo de material, representado pelo coeficiente de dilatação linear (α), e da variação da temperatura (Δt):
ΔL = Lo . α . Δt
Aplicamos nesta fórmula os valores medidos na experiência:
0,75 = 500. α.(97-20)
Com isso,encontramos:
α = 0,0000194805

Comparando este valor com o valor encontrado na internet, pudemos verificar que chegamos muito próximo do esperado. No site http://www.webcalc.com.br/engenharia/dilat_alfa.html, por exemplo, o valor informado é:
α = 0,000019

Eu já havia realizado com os alunos o mesmo experimento, utilizando o aço e o cobre, e também chegamos a valores bem próximos do esperado.
Vejam o vídeo que fiz, mostrando a velocidade da dilatação através da variação no relógio medidor:

No meu tempo de colegial, eu aprendi dilatação somente através de aulas teóricas, e não tinha a mínima noção da velocidade do processo. 

A Banda Muse e a 2ª Lei da Termodinâmica

Eu devo confessar que há um bom tempo já não procuro mais conhecer as bandas novas de rock que vão surgindo, mas o amigo Kleber me indicou pelo facebook uma que se apresentou dia 14, no palco do Rock in Rio. Ele pediu para que eu prestasse atenção na letra da música The 2nd Law: Unsustainable, que também dá título ao mais recente álbum desta banda que eu ainda não conhecia, chamada Muse. Clique aqui se quiser ver a reportagem sobre sua apresentação no Rock in Rio. A letra faz uma referência à Segunda Lei da Termodinâmica, e a tradução pode ser vista clicando aqui.
Ao clicar no link com a letra, que meu amigo me passou, não resisti à tentação de ouvir a música, e me surpreendi. Eles usam muitos efeitos e distorções eletrônicas, abusando da tecnologia para produzir um som que me agrada. Eu gosto destes experimentalismos sonoros, que passam a impressão de que a gente está ouvindo algo inovador. Achei também muito original que eles tenham usado e divulgado uma lei da Física para tentar alertar principalmente os jovens fãs sobre a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento adotado atualmente no mundo, em que o consumismo desenfreado, aliado à falta de uma política séria de reciclagem, só faz com que caminhemos para a beira de um abismo sem volta.

A segunda Lei, segundo Richard Feynman
Para entender o que os caras do Muse quiseram dizer na letra, vamos analisar um pouquinho esta específica Lei da Física. Para isso, vou aproveitar para divulgar um livro que já se tornou um clássico, Lectures on Physics, escrito por Richard Feynman (foto). Eu não tinha pensado em comprar o livro até hoje, pois é meio carinho. Custa em torno de R$ 350, um preço salgado para quem, como eu, não pode se dar ao luxo de despender esta quantia, tendo tantas contas essenciais para pagar com meu salário de professor. Mas agora, para a sorte das pessoas que se interessam pela Física, o livro acaba de ser disponibilizado gratuitamente na Internet pelo Caltech (California Institute of Technology), como gentilmente nos informou o professor Dulcídio Braz, em seu excelente blog Física na Veia. Para quem quiser dar uma espiada em um item específico de cada um dos 52 capítulos do livro, clique aqui.

Uma das críticas que Feynman fez à maneira como a Física era ensinada nas escolas brasileiras, nos meses em que esteve por aqui, no início dos anos 50, era a de que os alunos tinham uma carga muito teórica, e não se dava o devido espaço à contextualização dos conceitos, à parte prática, e também ao aprendizado que era feito de maneira mecânica, sem o uso do raciocínio, o que na opinião dele era um grande equívoco.
Eu vou dar ênfase ao item 44-2 do capítulo sobre Termodinâmica - The Second Law, que eu traduzi e adaptei:

"Suponha que montemos um motor térmico composto de uma "caldeira" em determinado local, a uma temperatura T1. Um certo calor Q1 é produzido a partir da caldeira, o vapor se expande e realiza um trabalho W , e , em seguida, transfere o calor Q2 a um "condensador" no outro local, à temperatura T2 (fig. 44-3).
Embora todo mundo achasse antigamente que, de acordo com a teoria do calórico, o calor Q1 teria que ser o mesmo que Q2, Carnot mostrou que eles não eram os mesmos, e isto é parte importante para a compreensão de seu argumento. Na verdade, o calor Q2 corresponde ao calor Q1 que foi fornecido, menos o trabalho W que foi realizado:"
                                         Q2 = Q1 - W 

Relação da letra com a 2ª Lei
Nesta altura, alguns leitores podem estar se perguntando: Mas qual a relação entre a letra da música da banda Muse e toda a explicação que foi dada acima sobre a Segunda Lei?
Acontece que outra característica desta lei é que não pode haver passagem espontânea do calor (Q) de uma fonte fria para uma fonte quente. O que se observa é sempre o inverso. Outra impossibilidade é a conversão integral de calor em trabalho. Ao se construírem as máquinas térmicas, percebeu-se que é sempre necessário haver duas fontes a temperaturas diferentes, de modo que uma parte do calor retirado da fonte quente é rejeitada para a fonte fria. Não se consegue transformar em trabalho todo o calor retirado da fonte quente. Se isso fosse possível, poderíamos construir um navio que retiraria calor da água do mar e, sem a necessidade de uma fonte fria, transformaria todo esse calor em trabalho, o qual poderia movimentar o navio sem necessidade de combustível.

Vamos analisar um trecho da letra:


"Todos os processos naturais e tecnológicos procedem de tal modo que a disponibilidade de energia restante diminui
Em todas as trocas de energia, se nenhuma energia entra ou sai de um sistema isolado, a entropia do sistema cresce
A energia flui continuamente de um estado concentrado pra se tornar, dispersa, espalhada, gasta e inútil.
Novas formas de energia não podem ser criadas e energias de alta escala estão sendo destruídas. Uma economia baseada em crescimento infinito é...Insustentável."

Em um sistema fechado, a energia fornecida não pode se converter totalmente em trabalho, e assim, provavelmente o que eles estão tentando dizer é que este sistema não pode se auto-sustentar indefinidamente.
E agora, para relaxar, após tanta teoria, que tal curtir o clipe da banda?


Fontes:
Física Conceitual - Paul G. Hewitt - 9ª Edição - Editora Bookman
Universo da Física - Vol 2 - José Luiz Sampaio, Caio Sérgio Calçada - Editora Atual
http://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_lei_da_termodin%C3%A2mica
http://feynmanlectures.caltech.edu/I_44.html#Ch44-S2

calorias e Calorias

O assunto inicial que eu ensino todos os anos nas 2ªs séries do ensino médio é calorimetria. A maioria dos alunos já traz algum conhecimento prévio sobre o significado de calorias. Quase todos já ouviram falar das calorias "contidas" em um determinado alimento, ou sobre a quantidade que é perdida em um exercício físico, para emagrecer ou manter a forma. O problema é que certos conceitos físicos são usados popularmente de maneiras diferentes da definição formal, como é o caso, por exemplo, de se falar "eu peso 70 quilos", sendo que, pelos rigores da física, quilograma, na verdade é unidade de massa, e não de peso.

As calorias adotadas popularmente para indicar a energia fornecida pelos alimentos correspondem a 1.000 calorias daquelas que usamos na maioria dos cálculos dos exercícios de física. Para diferenciá-las, usa-se um C maiúsculo no caso de estarmos nos referindo às calorias alimentares. Então:

1 caloria alimentar = 1 Cal = 1 kcal

Durante a aula, com 40 alunos lotando a sala, e dois ventiladores que tentavam diminuir o desconforto térmico, uma aluna me pede para sair, a fim de encher a garrafinha de água. Claro que diante das condições do ambiente, sem questionar, dou-lhe permissão, e aproveito para  perguntar a ela sobre a quantidade de água da garrafa. Ela me diz que são 500 mL. Como a densidade da água é de 1 g/mL, a massa é 500 g. Estimo em aproximadamente 10,5ºC a temperatura da água gelada que ela iria obter do bebedouro da escola, e proponho aos alunos um exercício:

- Vamos calcular a quantidade de calorias retiradas do corpo da nossa colega assim que ela tiver ingerido toda a água da garrafa?

Peço a eles para que me digam a temperatura aproximada do corpo humano, supondo que estivesse em um estado normal, sem febre. Eles estimam corretamente: 36,5ºC. 

Comento com eles que se podemos conversar no nosso dia a dia sobre as calorias dos alimentos, é porque em algum momento alguém definiu o que seria uma caloria. Explico que sempre que comentamos, por exemplo, sobre a altura de uma pessoa, estamos comparando a medida dela com um padrão pré definido, que pode ser, neste caso, o metro. Quando dizemos: "Fulano tem 1,80 m", todos já sabem que ele é relativamente alto. Da mesma forma como alguém definiu o comprimento correspondente a um metro, em um determinado instante da história da ciência, tornou-se necessário definir o que seria uma caloria. 

Vejamos o que nos diz  a Wikipédia:

Historicamente, a definição de calorias era a quantidade de energia necessária para elevar em 1 grau celsius a temperatura de 1 g de água (o calor específico da água é, por definição, igual a 1).
Com a evolução das técnicas de medida, verificou-se que o calor específico não era constante com a temperatura. Por isso buscou-se padronizá-lo para uma faixa estreita, e a caloria foi então redefinida como sendo o calor trocado quando a massa de um grama de água passa de 14,5 °C para 15,5 °C.
definição de 1 caloria
Como podem notar, pelo fato de a caloria ter sido definida com base na água, o calor específico desta substância é, obviamente, c = 1 cal/gºC. Então, agora podemos responder:

Quantas calorias serão retiradas do corpo da nossa colega, depois de ter tomado 500 mL de água a aproximadamente 10,5ºC?
Vejam que através de um exercício simples, aproveito para inserir diversos conceitos básicos da calorimetria. Então, finalmente, vamos à fórmula, que foi historicamente determinada através de experimentações :
Q = m . c . ∆ t  
Q          quantidade de calor ( calorias )
m       massa ( g )
c         calor específico ( cal/gºC) 
∆ t     variação da temperatura ( ºC )

No nosso problema fica:
Q = 500 . 1 . (36,5 - 10,5) = 13.000 calorias = 13 Cal
Neste ponto faço a distinção entre calorias térmicas e calorias devido à queima de gorduras do corpo. Claro que a perda de calorias de gordura só é possível através de exercícios físicos, caso contrário eu estaria propondo a dieta da água gelada. As pessoas obesas com certeza adorariam poder perder peso desta maneira, mas infelizmente, as calorias perdidas no caso da aluna são apenas calorias térmicas.

Outro conceito que eu aproveito para explicar aos alunos neste momento é o da transmissão do calor, sendo que ele passa sempre expontaneamente, do corpo de maior temperatura para o de menor. Desta maneira, sabemos que se a temperatura do dia está em torno de 30ºC, e o nosso corpo a 36,5ºC, o calor tem maior dificuldade em sair, comparando com um dia frio, em que a temperatura ambiente é de 10ºC, e o calor do corpo é perdido num fluxo maior. Portanto, quanto maior a diferença entre a temperatura corpórea e a externa, maior o fluxo de calor que sai do nosso corpo, aumentando a sensação de frio.

Por que temos a sensação de frio quando estamos com febre?
Através do que expliquei, fica fácil entender. Se quando estamos com febre, a temperatura do corpo se eleva um pouco, aumenta a diferença entre esta e a temperatura ambiente, o que faz com que o fluxo de calor que sai do corpo se intensifique, aí temos a sensação de frio, por estarmos perdendo mais calor do que o normal.

Abaixo do zero absoluto

Nesta semana, deparei-me com a intrigante notícia de que cientistas alemães haviam conseguido obter temperaturas abaixo do zero absoluto. Mas como assim?
Há um bom tempo eu venho ensinando aos meus alunos que estas temperaturas não podem ser alcançadas. Será que agora eu deveria rever meus conceitos?

Na realidade, em
determinadas condições especiais, quando nos referimos ao comportamento quântico
de alguns gases, a definição de temperatura difere bastante da que aprendemos no ensino médio, através da física clássica. Resolvi então ater-me justamente a este ponto, para que possamos entender um pouco melhor este assunto.

Em meados de 1800, William Thomson (foto), que ficou mais conhecido como Lord Kelvin definiu a escala de temperatura absoluta, estabelecendo a partir de então que nada poderia ser mais frio do que o zero absoluto. Os físicos perceberam depois que a temperatura absoluta de um gás está relacionada com a energia cinética média das suas partículas. Temperaturas mais elevadas significavam energias cinéticas mais altas. O zero absoluto (-273,15ºC), por sua vez, corresponderia ao estado teórico em que as partículas estariam paradas, sem nenhum tipo de movimento. No entanto, na década de 1950, os físicos que trabalhavam com sistemas mais exóticos começaram a perceber que isso não era sempre verdade. 

Em condições normais, a maioria das partículas têm energia média ou próxima da média, e apenas algumas partículas têm energias mais altas. 
Na teoria, se a situação for invertida, com maior quantidade de partículas com níveis de energia mais altos, o sinal da temperatura absoluta passa de positivo para negativo, explica Ulrich Schneider, um dos físicos que comandou as pesquisas, na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, na Alemanha.

Schneider e seus colegas chegaram a tais temperaturas sub-zero-absolutas usando um gás quântico ultra frio feito de átomos de potássio. Com o auxílio de lasers e campos magnéticos, eles mantiveram os átomos individuais em um arranjo estrutural bem definido. Nas temperaturas positivas, os átomos se repelem, tornando a configuração estável. A equipe então ajustou rapidamente os campos magnéticos, fazendo com que os átomos se atraíssem, em vez de se repelirem. "Isso de repente muda os átomos de seu estado mais estável, o estado de menor energia, para o estado de energia mais alta possível, antes que eles possam reagir", diz Schneider. "É como andar por um vale, então imediatamente encontrar-se no cume da montanha."
Essa transição fez com que a temperatura do gás atingisse alguns bilionésimos de graus abaixo da temperatura de zero absoluto.

Na física clássica, o conceito de temperatura abaixo do zero absoluto não faz muito sentido. Uma vez que os átomos pararam de vibrar, o que restaria?
Entretanto, esta não é realmente a história completa da definição da temperatura. Há também uma coisa chamada entropia, que define a quantidade de desordem de um sistema.
Em um gás normal, através do aumento da temperatura (por aumento da energia no sistema), também aumenta a entropia (desordem).


A maioria dos sistemas tradicionais, como gases, não pode alcançar as chamadas temperaturas negativas, porque a adição de energia corresponde a um aumento na entropia,
mas, em um estado quântico, é possível alcançar temperaturas "Kelvin" negativas, onde a adição de energia na verdade diminui a entropia. Isto vai contra as leis da termodinâmica clássica, mas é teoricamente permitido pela mecânica quântica - as leis da física que definem o muito, muito pequeno. Em sistemas quânticos é possível definir um arranjo onde haja mais partículas nos estados de energia mais elevada do que nas inferiores. Pode-se então dizer que o gás está a uma "temperatura negativa". 
  
Na Wikipedia (em inglês) há uma boa explicação para o conceito de temperatura negativa. Um trecho que traduzi diz : "Uma substância com temperatura negativa não é mais fria do que o zero absoluto, mas sim mais quente do que a temperatura infinita.  A escala de temperatura do mais frio para o mais quente ocorre desta forma:"

 0 K,.. , 300 K,. . , + ∞ K, - ∞ K,. . , -300 K,. . , -0 K

Repare que, nestes sistemas, conforme aumentamos a energia, o aumento das temperaturas segue um padrão particular. Uma substância com temperatura negativa não é mais fria do que o zero absoluto, mas sim mais quente do que a temperatura infinita. Estranho, não é? Bem característico das coisas que acontecem na mecânica quântica.

A conclusão a que pude chegar é que tudo se resume a como se define a temperatura. Ao invés de pensarmos que foi quebrado um conceito fundamental da termodinâmica clássica, devemos entender que temperaturas abaixo do zero absoluto só podem ser alcançadas em condições muito especiais de um gás. 
Em termos gerais, para a maioria das substâncias "macros" a que estamos acostumados, o conceito do inatingível zero absoluto continua valendo.

Fontes:
http://www.sciencemag.org/content/339/6115/52
http://www.nature.com/news/quantum-gas-goes-below-absolute-zero-1.12146
http://www.newscientist.com/article/dn23042-cloud-of-atoms-goes-beyond-absolute-zero.html
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=temperatura-abaixo-zero-absoluto&id=010170130107

Cerveja estupidamente gelada

Eu fico muito feliz quando recebo comentários neste blog, feitos por grandes amigos que me prestigiam em cada postagem que faço. Com suas bem colocadas opiniões sobre diversos assuntos de nosso interesse comum, acabamos trocando ideias, e não raras vezes aprendemos uns com os outros.

Estupidamente congelada
Outro dia eu estava conversando aqui com um amigo, na seção de comentários da postagem sobre o tempo de reação, em que eu dizia como a reação se torna mais lenta quando uma pessoa se encontra alcoolizada, e foi então que surgiu uma pergunta a respeito de um fato que ocorre comumente, quando alguém segura inadvertidamente uma garrafa de cerveja, a qual encontra-se no ponto que chamamos de estupidamente gelada. Se uma pessoa sem experiência, ou que seja novata na arte da apreciação desta bebida, segura e abre a garrafa de maneira inapropriada, acaba fazendo com que o precioso líquido interior se congele e estrague o prazer dos demais amigos do grupo, que aguardavam ansiosos para degustar a "loira gelada" em um momento de descontração de uma tarde, após os estresses que fazem parte do cumprimento dos deveres durante a semana.

Estado Metaestável
Para entendermos por que ocorre este repentino e inesperado congelamento, temos primeiramente que entender o conceito de estado metaestável. Dentre tantas definições que encontrei, gostei particularmente de uma feita pela Wikipedia. Lá tem também uma figura que achei bem didática para compreendermos da forma mais simples possível o que ocorre neste caso. Leia:

“Um estado metaestável corresponde a qualquer estado do sistema diferente do estado de equilíbrio mais estável – diferente do equilíbrio termodinâmico – que tenha consigo associado uma restrição que impeça a transição imediata deste para o estado mais estável sem alguma perturbação significativa de origem geralmente externa ao sistema. O sistema pode assim permanecer por longos tempos no estado metaestável sem transitar para o estado mais estável. Contudo, presente a influência externa – ou interna adequada – o sistema irá transitar para o estado mais estável.”
 
Representação clássica unidimensional de um sistema com um estado metaestável (1), um estado instável (2) e um estado estável (3). A bolinha é assumida estática em cada um dos pontos indicados. No eixo vertical tem-se a altura, diretamente relacionada à energia potencial do sistema - que corresponde, no caso representado, à energia total do sistema - e na horizontal, a posição espacial da bolinha ao longo da rampa.
  
O caso da cerveja
Vou fazer então agora a comparação desta definição dada pela Wikipedia com o caso em que estamos estudando, que é o súbito congelamento indesejável da cerveja. O que ocorre é que o líquido, em determinadas condições, está a uma temperatura muito próxima do congelamento, ou até mesmo abaixo deste ponto, considerando as condições de pressão a que se encontra. Fazendo uma analogia com a figura acima, podemos dizer que neste caso a cerveja já deveria estar congelada, o que seria o estado correspondente à posição 3 no gráfico - um estado estável para ela. No entanto, ela ainda se encontra no estado correspondente à posição 1 no gráfico - em um estado metaestável - e ainda na forma líquida, bastando que um pequeno balanço, movimento brusco, ou um contato com temperaturas um pouco mais elevadas, faça com que ela adquira energia suficiente para que se eleve à posição 2, ultrapassando a barreira que a impedia de chegar rapidamente à posição 3 (congelada).  

Como evitar?
Os mais experientes apreciadores deste derivado da cevada, já tendo passado por situações como estas, desenvolvem cada um ao seu modo, técnicas que podem evitar este infortúnio. Alguns seguram delicadamente a garrafa, de preferência apenas pela tampinha ou na ponta do gargalo, para em seguida abri-la cuidadosamente. Outros passam antes a mão no fundo da garrafa, o que pelo que li, se tornou apenas um mito que não resulta em nenhum benefício prático. O fato é que, se o primeiro procedimento for adotado, segurando-se apenas na ponta do gargalo, abrindo-a com muito cuidado, e em seguida despejando-a bem lentamente, pode-se obter sucesso, e assim todos poderão tomar a cerveja no ponto limite do gelado, apesar de que os entendidos dizem que desta forma não se consegue distinguir apropriadamente o paladar dos diferentes tipos de cervejas. Eles recomendam que para os que desejam apreciar devidamente esta bebida alcoólica tão popular no mundo, a bebam a uma temperatura entre 6°C e 10°C. 

Efeitos da cerveja
Apesar de eu também apreciar uma cervejinha nos finais de semana, me sinto no dever de alertar as pessoas para os efeitos do abuso do álcool. Sou a favor de que se criem penalidades mais severas aqui no Brasil para os motoristas que são pegos embriagados ao volante, pois nós estamos sujeitos a sermos vítimas de um cidadão irresponsável, que pode acabar com nossas vidas ou de alguma pessoa querida mais próxima de nós. Preparei uma tabelinha com os efeitos do álcool. O problema é que estes efeitos podem variar de pessoa para pessoa, e dependem do organismo de cada indivíduo, e até mesmo do estado psicológico de cada um. Dizem que algumas pessoas, com apenas alguns copos de cerveja, se estiverem cansadas ou mal alimentadas, já podem perder bastante a atenção no trânsito.

Uma garrafa de 600 ml, resultaria em 0,2 a 0,25 gramas de etanol por litro de sangue, com estômago vazio,  e 0,1 a 0,15 gramas por litro de sangue, após uma refeição mista.