CBERS-3: a novela

Após uma longa novela que já dura 5 anos, com vários adiamentos, surge a notícia recente (clique aqui para ler) de que finalmente deverá ser lançado em outubro de 2013, o CBERS-3 (China-Brazil Earth Resouces Satellite). Segundo os órgãos de divulgação brasileiros, entre os quais o respeitado INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), este satélite aumentou para 50% a participação do Brasil em seu desenvolvimento. A outra metade ficou para os chineses.

Atrasos
O principal fator que gerou atrasos no programa deveu-se a um problema detectado em alguns conversores DC/DC, comprados pelo Brasil, de uma empresa norte-americana, os quais apresentaram defeitos durante os testes realizados pelos chineses, nos procedimentos finais que antecedem o lançamento. O pior deste episódio é a triste revelação de que neste setor aeroespacial ainda dependemos muito de tecnologias importadas, e não produzimos e desenvolvemos estas peças estratégicas por um grande descaso para com as nossas áreas científicas.

Pressão
Os chineses já estariam pressionando, chegando inclusive a ameaçar desistir do projeto, devido aos constantes atrasos nos cronogramas, aparentemente sentindo que o governo brasileiro não estaria dando a devida importância às soluções dos problemas surgidos, e portanto na continuidade da missão. O  MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia, e Informação) apressou-se então em tentar resolver o quanto mais rápido o problema, e em agosto de 2012 mandou cinco engenheiros brasileiros do INPE para a empresa americana fornecedora dos conversores. Esta medida aparentemente teria surtido o efeito desejado.

Riscos
Todos nós entendemos que seria muito arriscado que o CBERS-3 fosse mandado para o espaço com esta dúvida, se os componentes estariam funcionando perfeitamente ou não. Como sabemos, este risco não pode ser corrido de maneira alguma em uma missão desta natureza, já que neste caso é impossível corrigir o erro depois do lançamento. Caso isto acontecesse, o funcionamento estaria irremediavelmente comprometido, e todo o investimento teria sido em vão. Possivelmente, devido à relativa rapidez na divulgação da notícia recente do lançamento, os componentes que apresentaram falhas não foram substituídos por outros diferentes, de outro fornecedor, já que isto levaria ainda mais alguns anos para que fossem adaptados ao sistema, o que aborreceria ainda mais os já impacientes chineses. É provável que os conversores tenham apenas sido substituídos por outros do mesmo tipo, e do mesmo fornecedor, e isto pode ser um bom motivo de preocupação, pois se eles falharam uma vez podem falhar novamente no espaço. Espero sinceramente que eu esteja enganado, e a decisão de lançar o satélite não tenha sido precipitadamente tomada somente à luz do desgaste político que causaria uma situação constrangedora de ter que adiar mais uma vez ou até mesmo cancelar a missão. Ao mesmo tempo, penso que não haveria perda maior em todos os sentidos, se logo após o CBERS-3 ter sido colocado em órbita ele não funcionasse como o esperado.

Torcidas
Estarei aqui torcendo para que tudo dê certo.
Através do programa CBERS, o Brasil já conseguiu monitorar, e pode continuar monitorando áreas de plantações de cana e outras culturas, expansão urbana, desmatamentos, queimadas, sistemas hidrográficos, e agropecuária. O CBERS-3 será o 4º satélite lançado da base de Taiwan, de uma série de cinco programados. Até o momento foram lançados três, que já se encontram desativados: CBERS-1, em 1999; CBERS-2, em 2003; e CBERS-2B, em 2007.
Foto de Manaus, enviada em 2004 pelo CBERS-2
Eu já escrevi neste blog sobre Base de Lançamento de Alcântara, explicando porque ela é privilegiada em termos de posição global, muito mais do que a dos EUA e diversas outras bases no mundo, inclusive a chinesa. Quem quiser ler clique aqui. Aliás, neste post a que me referi, e que escrevi em maio de 2010, havia uma previsão de que o CBERS-3 fosse lançado em outubro de 2011. Se desta vez a previsão se concretizar, já estaremos dois anos atrasados. Que tal investirmos em Educação? A China já pensou nisto muito antes de nós. Agora eles estão apenas colhendo os frutos deste investimento. Mas vá falar isto para nossos alunos. Eu sou professor, e sei como muitos deles não pensam em se esforçar para aprender Matemática, Física, Biologia, Química, Geografia, História, Sociologia, Filosofia, Português, Inglês, ou Artes. Alguns estão mais preocupados com a escalação do nosso time de futebol para a Copa do ano que vêm. Podemos até ganhá-la, e eu também torcerei e ficarei muito feliz com isso, mas acho que também poderíamos começar a pensar em vencer em outras áreas.

Fontes:
http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/reuniao-anual-da-sbpc-2013/cbers-3-contagem-regressiva
http://jornaldosindct.sindct.org.br/index.php?q=node/275
http://panoramaespacial.blogspot.com.br/2012/12/o-que-podemos-aprender-com-as-falhas-de.html
http://www.cbers.inpe.br/sobre_satelite/descricao_cbers3e4.php
http://brazilianspace.blogspot.com.br/2013/05/os-riscos-para-lancamento-do-satelite.html

Update (09/12/2013):
Infelizmente fracassou a missão de colocar o CBERS-3 em órbita:
http://exame.abril.com.br/ciencia/noticias/lancamento-de-foguete-em-parceria-com-china-fracassa 
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6 comentários:

  1. Olá, Jairo!!!!

    Gosto muito das suas postagens e mais uma vez, parabéns, por essa aqui!!!!
    O Brasil (os brasileiros) dar a impressão de ser um "suicida tecnológico"!!!! Em parte, a causa é o precário ensino que se adota por aqui, onde... os professores fingem que ensinam bem e os alunos, fingem que aprendem tudo!!!! Falta educação e falta o dinheiro destinado para setores da educação e para projetos como os CERBEs!!!! Muitas das vezes, esses recursos são desviados para "buracos negros" políticos e aí, até a enorme "paciência chinesa", enorme, mas, não infinita, até ela, resolve reclamar desses "deboches" vivenciais tão prejudiciais até para os outros povos!!!! Bem feito!!!!
    Fico também, torcendo pelo bom êxito do projeto, que até pode sofrer com ações de "sabotagem" (peças importadas defeituosas???? KKKKKK!!!!!) vinda de longe!!!! Bem feito, novamente!!!!! Pois se não temos capacidade de produzirmos ainda, peças como essas baterias, quanto tempo irá demandar para sermos capazes de produzir nacionalmente, em 100%, um "ônibus espacial"????
    ACORDA BRASIL!!!!!

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    1. Olá, Valdir:
      Obrigado pela visita e pelo comentário.
      De fato, enquanto o nosso país não tratar com maior seriedade a Educação, continuaremos sujeitos a estes tipos de contratempos, mas neste caso do CBERS-3, vamos torcer para que tudo dê certo, afinal já foi gasto muito dinheiro nesta missão.

      Abraço.

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  2. Produzir ciência neste país é complicado. Além de não termos know-how algum e a educação indo de mal a pior, temos que depender da tecnologia de outros países, que sempre nos mandam peças de segunda categoria.
    A coisa está complicada...

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    1. Põe complicada nessa coisa Cidão. Nós que somos professores sabemos disso como ninguém. Tá difícil ser otimista neste país.

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  3. Pior deste atraso é o imenso prejuízo a fiscalização e controle de desmatamentos e ocupações irregulares que poderiam ser detectadas a custo baixíssimo.

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    1. Correto, amigo. Muito bem lembrado sobre as ocupações irregulares. Quem sai perdendo com isso somos todos nós, mas vamos torcer para que tudo dê certo desta vez, afinal já se gastou muito dinheiro nosso neste programa. Obrigado pelo comentário.

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